Um ponto de vista diferente sobre as idéias que forjam a sociedade...

Concepção Crítica de Ideologia

IDEOLOGIA são as maneiras como o sentido serve para estabelecer e sustentar relações de dominação.” (Thompson, 2007):

  • sentido: diz respeito a fenômenos simbólicos, que mobilizam a cognição, como uma imagem, um texto, uma música, um filme, uma narrativa; ao contrário de fenômenos materiais, que mobilizam recursos físicos, como a violência, a agressão, a guerra;
  • serve para: querendo significar que fenômenos ideológicos são fenômenos simbólicos significativos desde que (somente enquanto) eles sirvam para estabelecer e sustentar relações de dominação;
  • estabelecer: querendo significar que o sentido pode criar ativamente e instituir relações de dominação;
  • sustentar: querendo significar que o sentido pode servir para manter e reproduzir relações de dominação por meio de um contínuo processo de produção e recepção de formas simbólicas;
  • dominação: fenômeno que ocorre quando relações estabelecidas de poder são sistematicamente assimétricas, isto é, quando grupos particulares de agentes possuem poder de uma maneira permanente, e em grau significativo, permanecendo inacessível a outros agentes.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

A Reforma do Lucro

As pessoas (físicas) são, ou ao menos deveriam ser, educadas para respeitar o próximo, fazer o bem sem ver a quem, enfim, serem boas pessoas e não prejudicar as outras.

Pessoas jurídicas têm outra estrutura cultural. Apesar de sua engrenagem ser composta por pessoas físicas da melhor qualidade, naquele ambiente os valores individuais tomam outra forma. No mundo corporativo, o objetivo da pessoa (jurídica) não é fazer bem à família, aos amigos, à humanidade, ou a qualquer forma de ser vivo. Aqui o foco muda: o objetivo é o lucro, e ponto final.

Campanhas de responsabilidade social, bonificações, assistências, 14º, 15º e 16º salários recheiam muitas das companhias atuais, mas estão longe de ser seus objetivos primários. Motivar os empregados é secundário, trata-se de um caminho para fazê-los trabalhar mais e, no final, aumentar o lucro.

Não haveria nenhum mal nessa estrutura que busca o lucro se não fosse um porém: os recursos naturais são finitos! E isso muda toda a história.

Se alguns commmodities têm seus preços regulados pela lei da oferta e procura (o Mercado), outros saem de graça! O cinismo dos tempos atuais está justamente nessa vírgula.

Transformar o ferro brasileiro num carro estrangeiro, cujas partes são fabricadas ao redor do mundo e montadas no próprio Brasil, faz parte desta lógica. Se esse mecanismo aumenta o lucro da montadora de carros, até aí isso é problema (ou solução) dela e de seus acionistas, e a humanidade não tem nada que ver com isso.

Se a maior parte da humanidade participasse do jogo financeiro como investidores, como sócios das grandes corporações, então todos colheriam os frutos deste mecanismo. Acontece que a maior parte da humanidade ou não tem o que comer, ou vive para trabalhar e mal consegue sobreviver, ou trabalha para viver e consome quase todas as suas receitas em bens de consumo. Até aí, nenhuma novidade.

Acontece que uma parcela minúscula da humanidade consegue poupar e investir no mercado de capitais, tornando-se sócias anônimas das grandes corporações ao redor do mundo. É justamente aí que mora a ironia.

De um lado tem-se a maior parte da humanidade que pouco beneficia-se da destruição do mundo. Do outro, tem-se alguns poucos privilegiados que lucram muito com isso.

Os governos democráticos ao redor do mundo funcionam mais ou menos do mesmo jeito: são eleitos pela maioria das pessoas, mas servem aos interesses da minoria. O maior exemplo disso é a reverência ao Mercado, que é justamente a síntese deste mecanismo que busca o lucro acima de tudo.

As migalhas que sobram em breve talvez não sejam suficientes para suprir as necessidades de 6, 10, 20 bilhões de seres humanos. Este modelo não é auto-sustentável, apesar de extremamente interessante, inteligente e complexo.

Os recursos naturais básicos, sem os quais não haveria vida na Terra, são consumidos indiscriminadamente. Água e ar ainda não são patrimônios públicos! A conta de água que pagamos todos os meses diz respeito ao tratamento e distribuição da água, e não ao elemento H2O propriamente dito. O ar que muitas empresas poluem, direta ou indiretamente (através de termoelétricas, por exemplo), é grátis! Créditos de carbono estão longe de inverter o sentido desta curva de auto-destruição climática para onde caminhamos.

A água doce, pura e limpa que arrancamos da natureza para abastecer as grandes plantações de soja, cana e eucalipto, por exemplo, são grátis! Assim é impossível não lucrar. Os vegetais têm o poder "mágico" de surgirem da combinação básica entre água + Sol + ar + minerais. O custo com as plantações não inclui aquilo que deveria ser patrimônio de todos os seres vivos: água e ar.

Quando uma companhia constrói ou transfere sua fábrica para um país que tem usinas termoelétricas, agrega energia barata em seus produtos. Quando coloca o meio-ambiente em risco pela pressa de testar produtos não certificados como 100% seguros, como os transgênicos, inverte a lógica da precaução (aquela do "é melhor prevenir do que remediar"), mas aumenta o lucro.

O problema, na verdade, não é o lucro. É o ambiente onde as empresas competem, nos tempos atuais, ser cada dia menos regulado. Os governos estão cada vez menores e menos eficientes, incapazes de colocar ordem na casa. A sociedade diariamente é estimulada a desacreditar na política como instrumento de reforma social. No final das contas, aqueles que estão motivados pelo lucro fecham os olhos para as bombas-relógio que soltam e tomam conta de todo espaço disponível, já que a sociedade lava as mãos.

Em algum momento, daqui algum tempo, ou as pessoas físicas ou as jurídicas vão colapsar. Possivelmente muitos daqueles que beneficiam-se com o status quo não estarão aqui para colher os frutos, mas certamente os filhos e netos destes, e de todos nós, lembrarão da nossa geração como aquela que poderia ter desacelerado nossa auto-destruição, e fez menos do que deveria.

Soluções? Há muitas! Apenas não somos levados a refletir e nos engajar neste sentido. Os estímulos que temos são sempre os mesmos: individualismo, desacreditar na política, acreditar no Mercado, e o principal: consumir, consumir e consumir até o último centavo que corre pelas nossas veias bancárias.

Se pararmos de consumir, ou diminuirmos significativamente o nível de consumo, a economia entrará em recessão, os lucros das empresas diminuirá e aumentará o desemprego. É aí que mora o perigo! Estamos num tempo em que o nível de desenvolvimento científico-tecnológico dispensa, cada vez mais, a mão-de-obra humana. Ainda não encontramos uma forma de dividir esses benefícios com toda a humanidade. Os bônus deste mecanismo ainda são colhidos como dividendos e lucros de capital pela privilegiada minoria que vive de renda ao redor do mundo.

Quando encontrarmos um coeficiente em que o lucro proporcionado por todo esse desenvolvimento torne-se patrimônio da humanidade, poderemos reduzir o nível de consumo sem medo da recessão e do desemprego! Só nesse momento teremos encontrado uma solução para nossos netos e bisnetos não arcarem com o ônus da nossa alienação e consumismo.

Enquanto não tivermos coragem para criar um ambiente em que este assunto torne-se pauta na agenda econômica mundial, continuaremos iludidos de que apenas reduzir o consumo individual de água e utilizar transportes coletivos em detrimento do individual, será nossa contribuição para um mundo melhor. É mentira!

Precisamos urgentemente encontrar uma forma de distribuir a riqueza do mundo, diminuir o consumo individual e, é claro, diminuir o ritmo de crescimento da humanidade. 6 bilhões de seres humanos consumindo o que um cidadão médio dos Estados Unidos consome, é inimaginável. Por outro lado, 60 bilhões de pessoas num nível de consumo tipicamente africano, é sustentável do ponto de vista ambiental, mas será que é esse o preço que queremos pagar para super povoar a Terra?

Ou encontramos um equilíbrio urgentemente, ou nossos descendentes se lembrarão de nós com uma amarga nostalgia.

Os meios de comunicação seriam bem-vindos para estimular questões como essa, mas não podemos contar com eles. Assim como as outras pessoas jurídicas, essas empresas também motivam-se com o lucro! É na tragédia que elas ganham dinheiro, não na reflexão e no engajamento por um mundo melhor.


1 comentários:

Tiago Ferraz disse...

Lê,

Há mto tempo não entro numa discussão sobre este assunto, mas o post é mto bom, então acho que vale a pena. Vejamos:

"Apesar de sua engrenagem ser composta por pessoas físicas da melhor qualidade, naquele ambiente os valores individuais tomam outra forma."

Como assim da melhor qualidade?? Estamos falando de seres humanos. Às vezes bons, outras ruins. Eternamente contraditórios, por natureza.

"No mundo corporativo, o objetivo da pessoa (jurídica) não é fazer bem à família, aos amigos, à humanidade, ou a qualquer forma de ser vivo. Aqui o foco muda: o objetivo é o lucro, e ponto final"

Aqui cabe uma observação. O objetivo de uma pessoa jurídica não é mais o lucro. É aumentar a riqueza do acionista. Campanhas de responsabilidade social e todos os blá-blá-blás servem pra aumentar o valor agregado pela empresa, dando ao consumidor a percepção de que a empresa tem engajamento. É incontestável que estas ações beneficiam os "stakeholders": empregados, clientes, fornecedores, comunidades locais, etc. Pura consequencia do processo. O bem com o bem se paga?

"Se alguns commmodities têm seus preços regulados pela lei da oferta e procura (o Mercado), outros saem de graça!"

Pensar em regulação pelo mercado é piada. O mercado é um jogo. Ganha quem tem as melhores cartas ou o melhor blefe.

"Transformar o ferro brasileiro num carro estrangeiro, cujas partes são fabricadas ao redor do mundo e montadas no próprio Brasil, faz parte desta lógica".

Se parte do processo industrial é feita ao redor do mundo, trata-se exclusivamente de uma "cagada" (perdoe a expressão, mas o assunto me incomoda profundamente...) de política econômica. É não saber perceber as oportunidades que se abrem. A continuar no ritmo que anda, mto em breve nem montadores seremos. Logo, logo, todos comprarão seus Volkswagens made in China.

"Se a maior parte da humanidade participasse do jogo financeiro como investidores, como sócios das grandes corporações, então todos colheriam os frutos deste mecanismo."

Aqui entramos em contradição com a disponibilidade de recursos que vc (muito corretamente) aponta como finitos. Se a maior parte da humanidade participasse do jogo como investidores, estariam investindo em que?? Em empresas produtivas. Mas pra que uma empresa produz? Para que alguém consuma. Mas se todos fossem investidores, não teríamos um aumento exponencial dos níveis de consumo??? Não estaríamos acelerando a catástrofe??

"...Créditos de carbono estão longe de inverter o sentido desta curva de auto-destruição climática para onde caminhamos."

Os créditos de carbono são um instrumento financeiro. Como tal tem um objetivo claro. Aumentar a riqueza dos negociadores. E uma consequência absolutamente positiva. É um novo mecanismo de financiamento para projetos ambientais. Ajuda a alocar recursos onde eles são necessários. Definitivamente, NÃO é a salvação da lavoura como mtos querem fazer pensar.

"Acontece que a maior parte da humanidade ou não tem o que comer, ou vive para trabalhar e mal consegue sobreviver, ou trabalha para viver e consome quase todas as suas receitas em bens de consumo"

"O custo com as plantações não inclui aquilo que deveria ser patrimônio de todos os seres vivos: água e ar."

Olhando os dois trechos em bloco, vamos refletir... Se o custo com as plantações incluísse água e ar, quem seria mais penalizado??? O sujeito que gasta a maior parcela de sua renda com bens de consumo ou aquele que gasta com supérfluos (esqueçamos por enquanto a poupança, pra não virar covardia)???

"Quando uma companhia constrói ou transfere sua fábrica para um país que tem usinas termoelétricas, agrega energia barata em seus produtos"

Só uma pequena observação. Barata em relação a quê? Não é mais barata que a energia hidrelétrica. No fundo, tudo depende da escala. Faça um pequeno exercício, comparando duas matrizes energéticas diferentes. Some todos os investimentos e custos operacionais e divida pela quantidade de energia produzida ao longo do tempo. Compare os custos médios.

"O problema, na verdade, não é o lucro. É o ambiente onde as empresas competem, nos tempos atuais, ser cada dia menos regulado. Os governos estão cada vez menores e menos eficientes, incapazes de colocar ordem na casa"

Muito bem colocado. Mas pior do que nenhuma regulação é uma regulação ruim. Este é o grande problema do mundo moderno. Existe regulação. Mas é uma regulação defensora de privilégios. Olha para as negociações na OMC. Ou para a ONU. E todos os organismos mulilaterais. Pq será que o FMI ficou tão desacreditado???

"Precisamos urgentemente encontrar uma forma de distribuir a riqueza do mundo, diminuir o consumo individual e, é claro, diminuir o ritmo de crescimento da humanidade."

Não acredito em diminuição do consumo, mas tb em distribuição. Pense, por exemplo, num chinês de classe média hoje. Há 20 anos atrás, ele provavelmente era um camponês miserável em alguma cidade do interior. Imagine que ao longo destes anos, ele migrou para uma cidade industrial, sacrificou-se trabalhando quase como escravo e conseguiu acumular alguma poupança. Finalmente, ele pode melhorar seu padrão de consumo. Como convencê-lo de que, pelo bem da coletividade, ele deve abrir mão daquilo porque trabalhou ao longo de 20 longos anos??? Ele estaria errado em dizer não??

Peço desculpas pelo comentário tão extenso, mas há tempos ninguém me provocava.rsrsrs

Vou tentar, daki a um tempo, retomar o blog. Às vezes, sinto falta.

Abs

Tiago

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