Um ponto de vista diferente sobre as idéias que forjam a sociedade...

Concepção Crítica de Ideologia

IDEOLOGIA são as maneiras como o sentido serve para estabelecer e sustentar relações de dominação.” (Thompson, 2007):

  • sentido: diz respeito a fenômenos simbólicos, que mobilizam a cognição, como uma imagem, um texto, uma música, um filme, uma narrativa; ao contrário de fenômenos materiais, que mobilizam recursos físicos, como a violência, a agressão, a guerra;
  • serve para: querendo significar que fenômenos ideológicos são fenômenos simbólicos significativos desde que (somente enquanto) eles sirvam para estabelecer e sustentar relações de dominação;
  • estabelecer: querendo significar que o sentido pode criar ativamente e instituir relações de dominação;
  • sustentar: querendo significar que o sentido pode servir para manter e reproduzir relações de dominação por meio de um contínuo processo de produção e recepção de formas simbólicas;
  • dominação: fenômeno que ocorre quando relações estabelecidas de poder são sistematicamente assimétricas, isto é, quando grupos particulares de agentes possuem poder de uma maneira permanente, e em grau significativo, permanecendo inacessível a outros agentes.

quinta-feira, 5 de outubro de 2006

A Lógica do Lucro

Nesses tempos de capitalismo acelerado em que vivemos, o mundo apresenta alguns sintomas, em todas as suas dimensões, que podem ser percebidos sob uma observação atenta. Vejamos algumas conexões típicas do mundo atual.

O casal se junta, ambos trabalham para compor a renda, têm filho. Alguém precisa cuidar da criança, contratam alguém. Esta versão moderna da "ama de leite" utiliza técnicas intuitivas de ensino e educação. A criança tem sua cognição e percepção do mundo forjadas, em boa medida, pelos valores de todas as pessoas que ocupam o espaço dos pais: babá, professora, apresentadora do programa infantil, personagens dos desenhos animados.

A criança passa a ter vontade própria, a ser inserida no mundo, inclusive, do consumo. É estimulada a consumir desde pequena, a desejar, a querer ter. Este estímulo vem por todas as partes, desde a TV até os próprios pais, que tentam suprir suas ausências, também, com estímulos materiais. A vontade da criança é respeitada, mesmo que tenha sido construída pelo sistema de comunicação e entretenimento que a cerca, direta ou indiretamente; neste caso, através daqueles educadores que a cercam.

Desde cedo o indivíduo é estimulado a sentir prazer com alimentos ricos em colesterol, gorduras, açúcares, corantes, flavorizantes, conservantes, estabilizantes, antiumectantes, emulsificantes, aromatizantes. Uma vez feita a exposição a este tipo de prazer, tão comum e disseminado, este passa a ser um teto do prazer.

Quando cresce, novos horizontes são traçados. Outros hábitos também comuns são apresentados e, se na infância não educou-se o indivíduo para fazer as suas próprias escolhas, com o mínimo de influência do meio, dificilmente será na adolescência que haverá a tomada de consciência. Neste momento, é bem-vindo ao mundo sedutor, conquistador, glamouroso, comum, tribal, do álcool e do cigarro.

A depender de certas construções cognitivas forjadas na infância, o indivíduo contenta-se com o prazer dos hábitos comuns. Da mesma forma, é possível que novas experiências sejam desejadas e: bem-vindo ao mundo das drogas!

Mudando um pouco de direção, temos a construção incessante de modelos estéticos, com a exposição incessante de personagens que forjam a percepção universal do que é belo. A depender da "sorte" do indivíduo, do seu metabolismo, das enzimas produzidas pelo seu corpo, sem muito esforço acaba encaixando-se neste padrão. Seria regra se não fosse exceção! O novo desafio surge: felicidade agora é encaixar-se no padrão estético. Lutar com inimigos antigos, velhos hábitos de infância, carências afetivas: não é batalha para amadores.

Ainda em outra direção, a indústria médico-farmacêutica fomenta a venda de remédios curativos, anti-tal-doença, que não trabalham com o fortalecimento da saúde global do indivíduo.

Noutro rumo ainda, necessidades são criadas, ódios alimentados, preconceitos estimulados, o sistema político encontrou um ponto de equilíbrio em que as coisas não cheiram nem fedem: não há mais um inimigo comum, da mesma forma que estamos longe de uma democracia real, concreta, de fato. As pessoas estão estabilizadas e alienadas, movimentos de resistência são apenas focos isolados, pouco ou nada divulgados, marginalizados, criminalizados.

Nas escolas, a cartilha de ensino prepara para o vestibular, para o mercado de trabalho. É impensável estimular milhões de indivíduos a refletirem, a questionarem, a perceberem o funcionamento dos diversos sistemas que nos cercam.

O mecanismo que beneficia-se da lógica do lucro opera numa freqüência perfeita! Vejamos.

1. A renda do trabalho diminuiu: o casal precisa trabalhar para manter um padrão de vida confortável.
2. O filho é criado por babás.
3. As babás criam e são criadas recursivamente, retransmitindo os valores transmitidos a elas próprias.
4. As crianças são anestesiadas desde pequenas pela TV, incluídas na lógica do consumo ou, na pior das hipóteses, do desejo pelo consumo.
5. Os indivíduos experimentam o prazer alimentar prejudicial à saúde desde pequenas, quando ainda são vulneráveis e não têm discernimento para fazer as próprias escolhas.
6. A irradiação e sedução do marketing consome a vontade dos indivíduos.
7. Todo mundo quer estar dentro do padrão estético de beleza.

A lógica perversa do lucro opera, baseada em premissas com as acima, da seguinte forma:

A. A cognição é construída sobre bases frágeis, bem como os valores;
B. A maioria dos hábitos levam à destruição da saúde do indivíduo, inclusive estética;
C. A exposição aos meios de comunicação é intensa;
D. A lógica é tirar com uma mão e oferecer com a outra!!! Criam-se indústrias que lucram nos dois sentidos!!!
E. Oferecimento de prazer alimentar e, depois, regimes e dietas;
F. Destrói-se o meio ambiente e, depois, criam-se equipamentos de sobrevivência urbana;
G. Alimenta-se doenças e, depois, vende-se o remédio;
H. Criam-se jovens carentes de tudo e, depois, coloca-os nas cadeias;
I. Estimula-se cinicamente a natalidade e, depois, cria-se rebanhos falso-democráticos;
J. Oferece-se informações e notícias e, junto, recorta-se, costura-se, cola-se, enfim, cria-se outra realidade, baseada em fatos reais!

Vivemos num tempo em que, para consagrar a lógica deste sistema, levantar-se questionamentos como os acima é careta e ultrapassado, pois trata-se de questões que já foram "superadas". Sim, superadas, pois estão de algum dia voltarem a compor a agenda de discussões. Significaria algo como anti-progresso, mesmo que este progresso signifique algum apocalipse.

Consta, inclusive, que o 1º sintoma do apocalipse é justamente a incapacidade de percebê-lo!

Cria-se a idéia e a imagem de que estamos num mundo de progresso. Dizem que investir em desenvolvimento aumenta o número de empregos. Rotula-se distribuição de renda como socialismo/comunismo. Alimentam a idéia de que o mercado é um ente mágico e justo com poder de auto-regulação, e que todo o conjunto da sociedade beneficia-se com um estado mínimo. Fomenta-se o desinteresse pela política, deixando este espaço ser ocupado, cinicamente, por quem sabe melhor do que ninguém seu poder alavancador. Desestrutura-se sistematicamente quaisquer movimentos sociais. Constrói-se jardins floridos sobre pântanos de interesses privados.

Enfim, quem manifesta-se com um olhar diferente acaba sendo uma voz rouca, censurada pela lógica do lucro, que não investe nem a pau seu rico dinheirinho para difundir e disseminar quaisquer idéias que ameaçem a soberania das idéias vigentes.

Sejamos bem-vindos à Matrix. Façamos nossas próprias escolhas.

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