A Imprensa é formada pelo conjunto das empresas de comunicação que mediam (mídia) os fatos e a sociedade, atuando como a janela pela qual os indivíduos observam a sociedade, e vice-versa.
O Jornalismo é uma atividade profissional que, como muitas outras, depende de uma estrutura empresarial para ser exercida.
O Jornalista é o profissional que habilita-se para o mercado de trabalho buscando, via de regra, empregar-se em uma empresa de Comunicação.
As empresas de Comunicação, como qualquer outra, têm por objetivo final o lucro. De forma muito peculiar, este tipo de empresas têm forte espaço para conquistar, também, influência e poder.
O Jornalismo, portanto, acaba servindo a diferentes propósitos, dependendo do ator observado:
- Para a empresa de Comunicação: é uma ferramenta (um meio) para conquistar seus objetivos (fins) de lucro, influência e/ou poder;
- Para o Jornalista: pode ser tanto uma ferramenta (um meio) para conquistar/manter um emprego/salário, quanto para de alguma forma melhorar o mundo, seja informando honestamente, construindo idéias, ou articulando pessoas.
- Para o cidadão: receber notícias honestas e, também, opiniões que facilitem a compreensão do mosaico (contexto) formado pelo conjunto de peças (fatos).
O Jornalista, entretanto, nem sempre consegue conciliar Jornalismo honesto e de qualidade com um bom emprego/salário. O preço para inserir-se no mercado de trabalho acaba sendo seguir as regras (do jogo) impostas pelo patrão: o(s) dono(s) da(s) empresa(s) de Comunicação.
É importante perceber-se a distância entre a Liberdade para fazer-se Jornalismo honesto e de qualidade, possivelmente desejável por grande parte dos Jornalistas, e o lucro/influência/poder, possivelmente desejável por grande parte dos donos/acionistas de empresas de Comunicação.
Neste contexto, o Jornalista acaba sendo um profissional, via de regra, inteligente, discernido e qualificado, mas formado desde os tempos de faculdade para trabalhar num ambiente profissional anti-Jornalismo-honesto que, independente de sua vontade, domina este mercado (de trabalho).
A Imprensa de nossos tempos está viciada num ciclo que contamina as notícias com opiniões, construindo notícias opinativas, ao invés de separar os fatos entre notícias e opiniões, de forma clara, honesta e transparente.
A esta Liberdade de transformar criativamente a realidade dá-se o nome de Liberdade de Imprensa.
A Liberdade de Expressão não deve ser confundida com a de Imprensa. Aquela caracteriza-se pela clareza e honestidade, enquanto esta, pela manipulação deliberada e seletiva, que segue regras e cartilhas impostas pelas empresas de Comunicacao - a Imprensa.
Os textos jornalísticos podem ser separados basicamente em dois tipos: de um lado, tudo aquilo que envolve opinião, expressão, dissertação, editorial, ponto-de-vista; de outro, tudo aquilo que remete à idéia de quem conta uma história ou um fato, na forma de relato, matéria, notícia, reportagem, entrevista.
É na falta de clareza na construção destes textos (escritos, radiofonados ou televisionados) que esconde-se o Jornalismo manipulador e, portanto, desonesto.
A Liberdade de Imprensa, como instrumento de influência e poder, serve aos interesses de quem beneficia-se com esta manipulação, e não ao conjunto da sociedade.
A Imprensa, através de seus veículos, influência e poder, criou e alimentou ao longo dos anos um fetiche pela Liberdade de Imprensa, conectando-a direta e desonestamente à Liberdade de Expressão, confundindo os indivíduos e blindando qualquer questionamento que a limite, criando algo como um tabú, um dogma inquestionável, uma regra universal criada pela Natureza e, portanto, inquestionável!
Esta mesma Imprensa, habilmente, alterou o significado de censura: passou a ser qualquer limitação à Liberdade de Imprensa. O sentido mais amplo, entretanto, remete à supressão de certos pontos-de-vista e opiniões divergentes, através inclusive da manipulação da mídia/Imprensa, influenciando e manipulando a opinião-pública. As conseqüências são anti-democráticas: evita-se que outras idéias, que não as predominantes ou dominantes, tenham receptividade!
Critica-se as limitações eventualmente impostas à Liberdade de Expressão por parte do estado, mas não aquelas impostas pela própria Imprensa, que tem completa liberdade para manipular a realidade: ocultando, fragmentando, selecionando aspectos, descontextualizando, invertendo e induzindo os fatos.
Se por um lado a Imprensa é o espaço através do qual a sociedade atual é mediada, por outro não é muito provável que esta mesma Imprensa, enquanto mecanismo, inicie um debate sincero com a sociedade, como um mea culpa, questionando justamente esta Liberdade que lhe dá espaço para influenciar livremente esta mesma sociedade que, sem perceber/questionar, apóia incondicional e cegamente sua própria manipulação.
É compreensível que a Imprensa que já está há tempos instalada e domina este mercado, não proponha-se a dar um tiro no próprio pé, abrindo espaço para movimentos que limitem sua influência, poder e lucro. O que podemos fazer enquanto indivíduos (Jornalistas ou não) é, num primeiro momento, refletirmos sobre a necessidade (ou não) de algum tipo de regulação e/ou limitação a esta Imprensa, pela própria sociedade civil (enquanto sociedade, não governo).
Fala-se aqui de regulação e limitação pela sociedade civil, e não de censura por governantes!
Convencidos da dimensão dos potenciais danos causados pela Liberdade de Imprensa como a conhecemos hoje, podemos difundir este outro ponto-de-vista, quebrando este paradigma.
A Liberdade de Imprensa é um instrumento jurídico, criado pelos homens, que usa a Liberdade de Expressão como argumento, como instrumento de conveniência, como cortina de fumaça atrás da qual transforma livremente a realidade real em realidade imaginária, como sugere Perseu Abramo em O Significado Politico da Manipulação na Grande Imprensa (artigo que, aliás, deveria ser lido por todas as pessoas que desejam, de alguma forma, entender alguns destes recursos livremente utilizados pela Imprensa).
A Liberdade de Jornalismo depende da mobilização da sociedade e dos jornalistas, limitando a Liberdade de criar fantasias concedida à Imprensa.
Sim, um Jornalismo Alternativo é possível: acesse conteúdos produzidos pela Mídia Alternativa e Mídia Independente, libertando-se minimamente da Manipulação imposta pela Mídia Corporativa através da Comunicação de Massa.
Um ponto de vista diferente sobre as idéias que forjam a sociedade...
Concepção Crítica de Ideologia
“IDEOLOGIA são as maneiras como o sentido serve para estabelecer e sustentar relações de dominação.” (Thompson, 2007):
- sentido: diz respeito a fenômenos simbólicos, que mobilizam a cognição, como uma imagem, um texto, uma música, um filme, uma narrativa; ao contrário de fenômenos materiais, que mobilizam recursos físicos, como a violência, a agressão, a guerra;
- serve para: querendo significar que fenômenos ideológicos são fenômenos simbólicos significativos desde que (somente enquanto) eles sirvam para estabelecer e sustentar relações de dominação;
- estabelecer: querendo significar que o sentido pode criar ativamente e instituir relações de dominação;
- sustentar: querendo significar que o sentido pode servir para manter e reproduzir relações de dominação por meio de um contínuo processo de produção e recepção de formas simbólicas;
- dominação: fenômeno que ocorre quando relações estabelecidas de poder são sistematicamente assimétricas, isto é, quando grupos particulares de agentes possuem poder de uma maneira permanente, e em grau significativo, permanecendo inacessível a outros agentes.
quarta-feira, 24 de maio de 2006
Mídia em Cheque: Liberdade de Imprensa
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