Um ponto de vista diferente sobre as idéias que forjam a sociedade...

Concepção Crítica de Ideologia

IDEOLOGIA são as maneiras como o sentido serve para estabelecer e sustentar relações de dominação.” (Thompson, 2007):

  • sentido: diz respeito a fenômenos simbólicos, que mobilizam a cognição, como uma imagem, um texto, uma música, um filme, uma narrativa; ao contrário de fenômenos materiais, que mobilizam recursos físicos, como a violência, a agressão, a guerra;
  • serve para: querendo significar que fenômenos ideológicos são fenômenos simbólicos significativos desde que (somente enquanto) eles sirvam para estabelecer e sustentar relações de dominação;
  • estabelecer: querendo significar que o sentido pode criar ativamente e instituir relações de dominação;
  • sustentar: querendo significar que o sentido pode servir para manter e reproduzir relações de dominação por meio de um contínuo processo de produção e recepção de formas simbólicas;
  • dominação: fenômeno que ocorre quando relações estabelecidas de poder são sistematicamente assimétricas, isto é, quando grupos particulares de agentes possuem poder de uma maneira permanente, e em grau significativo, permanecendo inacessível a outros agentes.

quinta-feira, 2 de março de 2006

Esmola Cidadã

Culpa é um dos sentimentos que mais vulnerabiliza uma pessoa. Através da manipulação deste sentimento por terceiros, é possível conquistar-se desde lágrimas até dinheiro.

Em países desiguais como o nosso, é comum uma "classe" de pessoas ter acesso a tudo do bom e do melhor e, outra "classe", não ter acesso a nada! Entre os cidadãos da "primeira classe" encontramos aqueles que sentem-se, de certa forma, culpados ou responsáveis, pela situação em que encontram-se os humanos (que lamentavelmente não são cidadãos de fato) da "segunda classe". Encontramos também cidadãos que, ao contrário, desprezam a desgraça alheia, culpando não a si próprios, mas aos próprios desgraçados!

Surge, então, um impasse: quem é o culpado, se é que existe um (no sentido de único), pela desgraça de grande parte dos seres humanos que cohabitam a Terra conosco? Eles próprios, nós, a entidade divina chamada "Sistema"?

A arte de julgar pessoas, à priori, não faz parte do repertório de habilidades concedidas a nós, réles mortais. Temos a opção, entretanto, de escolher nossas ações. É o que alguns preferem chamar de "livre-arbítrio".

Ignorância traz felicidade. Ignorar essas reflexões e desculpar-se (no sentido de tirar a culpa) através de esmolas, por exemplo, certamente diminui, momentaneamente, o sentimento de culpa de quem dá, mas o que acontece com quem recebe? A resposta certamente não é uma verdade universal, mas merece reflexão pois, por mais que não alivie a eventual "culpa de cada dia", talvez nos torne menos ignorantes sobre a realidade daquele que, supostamente, ajudamos.

Ajudamos alguém quando estendemos-lhe a mão para tirá-lo de uma situação difícil, ou quando perpetuamos-no na situação em que se encontra? Estenderer a mão exige muito mais envolvimento e comprometimento com pessoas anônimas do que dar-lhe a desejada esmola. Uma leve abstração: podemos estender a mão para puxar a outra pessoa para cima ou, por outro lado, abrir a mão para soltar uma moeda. Esta última ação não manteria o indivíduo no mesmo lugar onde está (as esquinas da vida)?

A esmola tem a habilidade de escravizar o indivíduo no estado de miséria e humilhação em que encontra-se! Quem oferece esmola certamente o faz com a melhor das intenções, encontrando em seu repertório de justificativas para aliviar a culpa (que também pode ser chamada de consciência... talvez soe menos agressivo) argumentos que o convencem, como estar ajudando a matar a fome de comida, a compor a renda daquela família de pedintes, a calar momentaneamente as lamentações daquele rosto sofrido.

Sem dúvidas quem dá esmola é, antes de tudo, um bem-intencionado! Dificilmente encontraremos alguém que dê esmola motivado pela perpetuação daquela desgraça. Talvez seja doloroso digerir uma idéia que vai de encontro a hábitos antigos, mas é impossível construirmos um mundo melhor sem, antes de tudo, olharmos à nossa volta e ajudarmos, de fato, o próximo.

Pode surgir então um sentimento de impotência: o que fazer então? Esmola não muda o mundo e nem contribui para a evolução daquele indivíduo, mas o que pode ser feito? 1000 sugestões podem ser apresentadas! Use sua criatividade!

Podemos criar, participar e/ou contribuir com projetos sociais, por exemplo. Participar de associações, pressionar políticos, adotar uma criança e dar-lhe tudo do bom e do melhor, ajudar a pagar os estudos de outra, educar nossos próprios filhos com uma visão humanista, ecológica, cidadã. É através dos círculos mais próximos que começamos a mudar o mundo.

Aquela mãe que já tem 8 filhos e está grávida novamente, coordenando com toda sua ignorância a arrecadação de esmolas que comporá a renda da família, não é capaz de perceber o atentado que seus próprios filhos sofrem ao roubar-lhes a infância! E não é através da esmola que nós vamos ajudá-los a libertarem-se disso!

Um olhar fraterno, daqueles que mostra que a pessoa foi, no mínimo, percebida, pode ter um efeito muito mais construtivo do que qualquer esmola, e certamente é mais dignificante do que o total desprezo que muitos de nós possamos ter e expressar por estes trabalhadores-infantis-escravos-urbanos-contemporâneos.

1 comentários:

Anônimo disse...

Realmente não é a melhor opção, dar esmolas! Porque não vamos mudar o mundo com isso e sim ajudar com que esse fato cresça ainda mais...
Podemos ajudar as pessoas de outras formas... concordo com ajudar instituições, que abrigam pessoas necessitadas... Mais não ajudar alguém que pede na rua...
Muitas vezes até usando os própios filhos... Que é até ignorância não perceber que apenas com a educação é que se pode melhorar de vida... Claro que ao vermos uma pessoa em total miséria sentimos vontade de ajudar... Porém cidadãos tem direito a alimentação, a saúde a educação... esse papel é do governo e não nosso que só contribuimos para que os próprios políticos fechem os olhos para essa situação...

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