Um ponto de vista diferente sobre as idéias que forjam a sociedade...

Concepção Crítica de Ideologia

IDEOLOGIA são as maneiras como o sentido serve para estabelecer e sustentar relações de dominação.” (Thompson, 2007):

  • sentido: diz respeito a fenômenos simbólicos, que mobilizam a cognição, como uma imagem, um texto, uma música, um filme, uma narrativa; ao contrário de fenômenos materiais, que mobilizam recursos físicos, como a violência, a agressão, a guerra;
  • serve para: querendo significar que fenômenos ideológicos são fenômenos simbólicos significativos desde que (somente enquanto) eles sirvam para estabelecer e sustentar relações de dominação;
  • estabelecer: querendo significar que o sentido pode criar ativamente e instituir relações de dominação;
  • sustentar: querendo significar que o sentido pode servir para manter e reproduzir relações de dominação por meio de um contínuo processo de produção e recepção de formas simbólicas;
  • dominação: fenômeno que ocorre quando relações estabelecidas de poder são sistematicamente assimétricas, isto é, quando grupos particulares de agentes possuem poder de uma maneira permanente, e em grau significativo, permanecendo inacessível a outros agentes.

quinta-feira, 30 de junho de 2005

Democracia Alienada

"Aquele que olha por um vidro de cor vê todos os objetos da cor desse vidro; se o vidro é vermelho, tudo lhe parece rubro; se é amarelo, tudo se lhe apresenta completamente amarelado; a paixão está para nós como a cor do vidro para os olhos; se alguém nos agrada, tudo lhe louvamos e desculpamos; se, ao contrário, nos aborrece, tudo lhe condenamos ou interpretamos de modo desfavorável." - by Beremiz, O Homem que Calculava

Pelo Dicionário Aurélio: alienação [Do lat. alienatione.] S. f. 5. Filos. Processo ligado essencialmente à ação, à consciência e à situação dos homens, e pelo qual se oculta ou se falsifica essa ligação de modo que apareça o processo (e seus produtos) como indiferente, independente ou superior aos homens, seus criadores. 7. Hist. Filos. Segundo Hegel [v. hegelianismo], processo essencial à consciência e pelo qual ao observador ingênuo o mundo parece constituído de coisas independentes umas das outras, e indiferentes à consciência - independência e indiferença serão negadas pelo conhecimento filosófico. 9. P. ext. Falta de consciência dos problemas políticos e sociais.

Numa relação social podemos separar, nem sempre de forma óbvia ou explícita, dominador e dominado. No mundo contemporâneo esses personagens são muitas vezes conhecidos como elite e sociedade, respectivamente.

As principais relações de poder existentes na natureza podem resumir-se à força física, financeira e intelectual, sendo as duas últimas exclusividade das relações humanas. O domínio físico é o único existente no mundo animal, onde a lei da sobrevivência é regida pela força física. Nas relações humanas, a força física tem efeito principalmente nas relações familiares, brigas de rua, penitenciárias e guerras, de forma que quanto mais distante desta natureza animal-emocional, maior sua limitação, que ocorre principalmente através de mecanismos policiais, militares e jurídicos, onde combate-se a força com a própria força, sendo esta controlada agora por quem possui o poder de canalizá-la legitimamente, seja para conter indivíduos, invadir países ou pressionar blocos econômicos.

O controle de quaisquer dois dos seguintes mecanismos leva o indivíduo automaticamente ao controle do terceiro: poder - conhecimento - riqueza

Se dividíssemos toda a riqueza da humanidade igualmente entre todos os indivíduos, perceberíamos no instante seguinte que a liberdade das escolhas individuais faria com que já houvesse desigualdades sociais: fulano decide investir, ciclano decide guardar, beltrano decide gastar, justiniano decide pagar dízimo, pastoriano decide receber dízimo, e assim sucessivamente.

A principal peculiaridade que motiva as escolhas individuais certamente está ligada ao conhecimento que o indivíduo possui, à cultura que agregou e à educação que recebeu. Se nenhum indivíduo sofresse de alienação, a transferência de riqueza entre beltranos e fulanos, justinianos e pastorianos, seria mais difícil de ocorrer. Então, como dominador, certamente o mais interessante é contaminar a sociedade com o máximo de alienação possível, facilitando o acesso àquelas que deveriam ser escolhas individuais.

O indivíduo altamente consciente, discernido, culto e educado é menos influenciável por um sistema, por mais inteligente que seja, de manipulação das idéias e emoções da sociedade.

As primeiras democracias da humanidade, Atenas, Islândia e Suíça eram numericamente pequenas, permitindo que suas deliberações políticas fossem influenciadas pela opinião pública. As principais questões geralmente eram de limites locais, circunscritas à realidade geográfica, caracterizando a vida política pela participação direta e pelo conhecimento em primeira mão das informações de relevância.

Nas democracias modernas, ao contrário, por estar afastado do poder político local, o cidadão depende de intermediários para tomar conhecimento dos fatos políticos. A mediação social que leva a informação das fontes para a audiência e traz os dilemas cotidianos da audiência para as estruturas de poder, passa a depender de um sistema de distribuição da informação. Qualquer monopólio sobre esta comunicação torna-se uma ameaça ao processo democrático.

Caracterizam-se como dominantes, neste contexto, aqueles que ocupam as estruturas de poder, seja nos centros de decisão política, seja nas estruturas que intermediam a distribuição de informações, em qualquer sentido (dominante-dominado e vice-versa).

A habilidade que o cidadão tem de interpretar a informação que chega até ele, quanto à autenticidade, relevância e significância, é o que pode mudar a cor do vidro que o separa dos bastidores do poder.

A democracia está intimamente ligada ao cultivo das preferências e escolhas individuais em todos os caminhos da vida. Estabelecer-se um plano de educação de longo alcance, destinado a fortalecer o modo de vida democrático, interessaria àqueles que controlam a sociedade? Estes controladores certamente conhecem os mecanismos de influência das escolhas individuais e, conseqüentemente, como diminuir às influências externas às suas próprias escolhas. Com esse conhecimento em mãos, o que os impediria de utilizar o máximo de mecanismos possíveis para doutrinar, influenciar e manipular as escolhas individuais do restante da sociedade?

Joseph Bram, em A Linguagem e a Sociedade Democrática, página 110/111, apresenta um plano de fortalecimento da democracia, o qual deve incluir os seguintes objetivos na área dos fenômenos linguísticos:
- o cultivo da imunidade aos apelos carregados de emoção, mas irracionais;
- a prática de análises semânticas e lógicas num nível popular;
- o estímulo ao pioneirismo literário.

A democracia é, na teoria, o governo do povo mas, na prática, é o argumento que justifica as conseqüências da dominação. Nada poderia ser mais confortável a quem domina imputar os males do mundo às escolhas individuais a quem é dominado. Pois a democracia é, em última instância, exatamente isso: uma ferramenta de controle. E é justamente o sentido deste controle que é anti-democrático, pois na pirâmide do poder democrática deveria vir de baixo para cima, mas na verdade o controle é exercido de cima para baixo.

Dividindo a responsabilidade com o povo, a elite não corre mais o risco da insurreição contra um monarca, pois as culpas passam a ser divididas entre todos. Culpar o povo por não participar das decisões, pela falta de consciência e pela sua própria ignorância é uma solução simplista, confortável, que esconde o verdadeiro vilão da história.

A liberdade de fazer-se as escolhas individuais pode ser, e de fato é, manipulada por quem tem mais conhecimento. Armadilhas verbais, sofismas lógicos e vidros coloridos continuarão
servindo aos interesses de quem controla, assim será sempre. A diferença entre ser um controlador e um controlado consciente é muito menor do que o universo que os separa do controlado inconsciente: é justamente a consciência.

O indivíduo que, alienado, ignora a existência de uma forma de controle, seja por opção, seja por falta de (opção), serve ao propósito de consolidar, cada vez mais, uma estrutura de poder que o anula e o aprisiona num buraco-negro, do qual dificilmente escapará, pois da mesma forma que suas idéias e escolhas individuais, a luz no fim deste túnel também poderá ter a cor do vidro que o separa da verdade, perpetuando sua ignorância.

Uma vez apresentado a este modelo de poder - conhecimento - riqueza, desde que com capacidade de discernimento e abstração, passa a ser opção do indivíduo (leia-se escolha individual) o personagem que será neste teatro: fantoche, espectador ou manipulador-de-fantoches.

Manter-se conectado a este sistema e obedecer suas regras, é o moto-perpétuo que mantém a alienação e permite que uns controlem, outros manipulem as informações e outros, grande maioria, sejam usados.

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