Observatório Semiótico

Um ponto de vista diferente sobre as idéias que forjam a sociedade...

Concepção Crítica de Ideologia

IDEOLOGIA são as maneiras como o sentido serve para estabelecer e sustentar relações de dominação.” (Thompson, 2007):

  • sentido: diz respeito a fenômenos simbólicos, que mobilizam a cognição, como uma imagem, um texto, uma música, um filme, uma narrativa; ao contrário de fenômenos materiais, que mobilizam recursos físicos, como a violência, a agressão, a guerra;
  • serve para: querendo significar que fenômenos ideológicos são fenômenos simbólicos significativos desde que (somente enquanto) eles sirvam para estabelecer e sustentar relações de dominação;
  • estabelecer: querendo significar que o sentido pode criar ativamente e instituir relações de dominação;
  • sustentar: querendo significar que o sentido pode servir para manter e reproduzir relações de dominação por meio de um contínuo processo de produção e recepção de formas simbólicas;
  • dominação: fenômeno que ocorre quando relações estabelecidas de poder são sistematicamente assimétricas, isto é, quando grupos particulares de agentes possuem poder de uma maneira permanente, e em grau significativo, permanecendo inacessível a outros agentes.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Uma Verdade Inconveniente: 3 Perspectivas

A reflexão à cerca do impacto ambiental na Terra nos remete a diversas questões morais. A cultura contemporânea, desde a primeira Revolução Industrial, tem sido sistematicamente massificada a apreciar os benefícios dos novos tempos como inevitáveis e livres de ônus. Segundo Marx Twain "o que nos traz problemas não é o que não sabemos, mas o que sabemos com certeza que não é". A evolução tecnológica e científica caminham juntas e, da mesma forma, o conhecimento à respeito das conseqüências do desenvolvimento tecnológico-científico.


Questão Ambiental

Al Gore, no documentário Uma Verdade Inconveniente, toca em diversos pontos à respeito da crise ambiental com a qual, cada vez mais, convivemos. Em 1958 um cientista norte-americano, professor de Al Gore, começou a medir a quantidade de monóxido de carbono (CO) na atmosfera. Os resultados mostram grandes mudanças causadas pelo modo de vida a que nossa civilização tem sido estimulada a praticar.

A análise de algumas conseqüências dos novos tempos merece especial atenção de toda a humanidade, caso desejemos deixar um mundo habitável para as futuras gerações. A primeira conseqüência pode ser observada na atmosfera. Quanto mais espessa, mais radiação solar ela reflete para o espaço. Acontece que ela tem se tornado cada vez mais fina, permitindo que mais radiação entre na Terra. Assim, o refletor passa a ser não mais a atmosfera, mas sim a própria terra e água, que por sua vez aumentam de temperatura. O calor conseqüente desta maior exposição à radiação solar, entretanto, fica preso dentro da atmosfera que, finalmente, aumenta a temperatura global do sistema terrestre.

Ainda em relação à reflexão dos raios solares, sabe-se que o gelo reflete 90% dos raios solares e que a água, ao contrário, absorve 90%. A diminuição na quantidade de gelo aumenta a quantidade de água que, finalmente, colabora fortemente com o mecanismo de aquecimento global.

Sabe-se que 40% da humanidade consome água de rios e, também, que grande parte dos rios são alimentados por geleiras. O aumento da temperatura faz com que o gelo seque mais rapidamente e, em decorrência disso, há menos água para alimentar os rios. Isso significa que grande parte da humanidade, num futuro próximo, sofrerá com a escassez de água potável.

O aquecimento global provoca algumas conseqüências paradoxais. Uma delas está ligada à realocação das precipitações. Enquanto algumas regiões são assoladas por tempestades com maior índice pluviométrico, outras sofrem com seu fenômeno oposto, a seca. Outro efeito é a realocação das estações do ano. A primavera vem cada vez mais tarde e o outono, cada vez mais cedo. Este efeito faz com que a temperatura fique mais tempo alta, desconfigurando diversos biosistemas que demoraram milhões de anos para se formarem.

O aumento da temperatura da água oceânica aumenta a velocidade dos furacões que, mais violentos, causam a perda de vidas, inclusive humanas. Além disso gastam-se recursos financeiros com a reconstrução de cidades inteiras, que poderiam estar sendo utilizados para outros fins. O alagamento de Nova Orleans, nos Estados Unidos, em 2005, além do aparecimento do 1º furacão no Brasil, são exemplos das conseqüências diretas deste aquecimento. Também em 2005, na Europa, 35.000 pessoas pagaram com a vida uma onda de calor que assolou o continente.

O sentido das correntes oceânicas influencia fortemente a distribuição da temperatura ao redor do mundo. A inversão destas correntes pode afetar milhares de nichos da natureza. O derretimento do gelo aumenta a quantidade de água no oceano e, em decorrência disto, diminui a quantidade de sal em determinadas regiões do oceano. Este desequilíbrio é capaz de inverter as correntes oceânicas.

O aumento da quantidade de água no mar, conseqüência direta do derretimento das calotas polares, alagará em algum tempo milhares de ilhas e cidades litorâneas. O efeito disto será a diáspora de uma população de centenas de milhões de refugiados para o interior.


Questão Política

Para Al Gore, a questão ambiental não é um tema meramente político, mas uma questão moral. O sistema democrático atual não dá conta de discutir-se como devemos passar nossas vidas na Terra, e nem nos leva a reagir contra a possibilidade de perdermos aquilo que nos é mais importante.

As duas principais potências econômicas atuais, Estados Unidos e China, têm sua energia originada principalmente em usinas de carvão. Esta fonte de energia é degradante, poluente, mas altamente rentáveis. Este certamente não é uma bandeira democrática, mas é absolutamente compreensível numa sociedade dirigida por interesses econômicos.

Há uma crescente colisão entre nossa civilização e a Terra. O crescimento populacional aumenta exponencialmente a demanda por comida, água e recursos naturais. Acontece que a Terra tem limites que vão além da Teoria Malthusiana, a qual diz que o crescimento da população ocorre em proporção geométrica e a produção de alimentos, em proporção aritmética. Mesmo que o modelo proposto por Thomas Malthus tenha se mostrado superado, não há nenhuma evidência de que seja possível aumentar-se geometricamente a produção de recursos naturais, como o ar e a água. Estes recursos, afinal, são naturais, e não podem ser artificialmente criados pelo ser humano, pelo menos até o presente momento.

O modelo econômico atual certamente oferece muitos benefícios a uma parcela privilegiada da humanidade, mas todos os seres vivos do planeta colhem os cânceres produzidos por este sistema. A percepção humana não é capaz de perceber a intensidade, mas apenas variações de intensidade. Assim, nossa capacidade de perceber diferenças muito sutis é prejudicada, e as mudanças climáticas parecem ser casuais no curso da vida humana. A natureza humana leva tempo para fazer as conexões entre causas e efeitos, e o problema disso é que algum dia desejaremos ter ligado os pontos mais rápido.


Meios de Comunicação

Em 928 artigos científicos produzidos nos últimos 10 anos, é unânime que o aquecimento global é causado pelos seres humanos. Mas os meios de comunicação criam uma controvérsia quanto a isso na cabeça do público. O objetivo deliberado desta estratégia é reposicionar o aquecimento global mais como uma teoria do que um fato. Esta artimanha serve a interesses econômicos, mas prejudiciais à humanidade e às demais espécies com quem coabitamos a Terra. De 636 artigos produzidos na imprensa comum nos últimos 14 anos, 53% deles duvidaram sobre a nossa responsabilidade em relação a esta questão.

Ao redor do mundo cientistas são levados a mudarem suas conclusões científicas, ridicularizados e, inclusive, privados do trabalho, porque os fatos que descobrem são verdades inconvenientes àqueles que beneficiam-se diretamente do sistema econômico atual. O relatório científico fraudado pelo Instituto Americano de Petróleo, enviado à Casa Branca, é apenas um exemplo do quanto a questão moral pode ser deixada de lado em benefício de interesses de determinadas corporações beneficiadas por mecanismos fortemente responsáveis pelo aquecimento global. À respeito disso Al Gore cita Upton Saintclare: "é difícil fazer um homem entender algo, se seu salário depende do seu não entendimento".

A preferência por interesses econômicos em detrimento do meio ambiente desconsidera questões óbvias, como o fato de que de nada adiantará o acúmulo de riqueza se não tivermos um planeta para usufruí-la. O que merece especial atenção é o fato de que se a humanidade fizer o que é certo, criaremos muita saúde e muito trabalho, porque o que é certo sempre impulsiona para frente. Este pressuposto óbvio faz com que a balança das escolhas que tem de um lado barras de ouro e, de outro, o planeta Terra, pese mais para nosso planeta.

É necessário que as pessoas, comuns e poderosas, façam algo à esse respeito, mas as pessoas vão da negação ao desespero, sem ao menos passar pelo passo intermediário de fazer alguma coisa sobre o problema. Os cientistas Stephen Pacaia e Robert Socolos afirmam que "a humanidade já possui os fundamentos científicos, tecnológicos e o conhecimento industrial para resolver o problema do carbono e do clima" (Revista Science, 13/08/2004).

A preservação do nosso planeta depende de um urgente reordenamento de prioridades políticas, econômicas e sociais. Nos tempos atuais o terrorismo é visto como a grande causa contra quem a humanidade deve lutar. Mas o mundo está cercado por outras ameaças, muito mais graves e destrutivas do que o terrorismo.

Existem algumas sugestões que, se adotadas em larga escala, poderão reduzir as emissões de carbono abaixo das de 1970, como a utilização de materiais elétricos mais eficientes, carros mais eficientes por mais tempo, tecnologia renovável, captador e isolador de Carbono e, o principal: vontade política.

A idéia de que se cada ser humano adotar estes procedimentos, sugeridos por Al Gore, há salvação, desconsidera diversos fatores sistêmicos que são alavancados por interesses econômicos e políticos. Mas por outro lado, se o todo é sempre um pouco mais do que a soma das partes, é fundamental que a humanidade perceba o poder alavancador da política, e passe a ocupar este espaço com indivíduos engajados e conectados com os interesses da humanidade e solidários com as demais espécies vivas.

As ações individuais podem ser alavancadas, impulsionadas e multiplicadas por ações políticas. O custo econômico da destruição ambiental é praticamente nulo atualmente. Coragem e vontade política para mexer com poderosos interesses corporativos, depende da efetiva participação do povo, através de democracias plenas, ainda muito distantes das fôrmas de democracia que moldam a sociedade atual.

Os meios de comunicação, como instrumentos alavancadores de cultura e consciência, precisam também com urgência penetrar mais profundamente nas questões azedas e indigestas que dizem respeito a todos nós. Estamos cobrando uma dívida transgeracional, ou seja, uma dívida que será paga pelas futuras gerações. Haverá um momento em que nossos descendentes poderão perguntar a si mesmos: "O que os nossos pais estavam pensando? Por que eles não acordaram quando tiveram a chance?"

Esta é uma resposta que cabe a cada um de nós.

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